Bets ilegais, Fintechs e lavagem de dinheiro: o que a Operação Carbono Oculto revela sobre os riscos do mercado paralelo de apostas

A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, expôs com precisão cirúrgica aquilo que o setor jurídico e o empresarial já suspeitavam: o mercado paralelo de apostas esportivas no Brasil não é apenas um problema regulatório. É uma porta de entrada estruturada para a lavagem de dinheiro em larga escala. Compreender esse fenômeno, seus mecanismos, seus atores e suas consequências, é indispensável para qualquer empresa que queira operar com segurança jurídica no atual cenário

Em 28 de agosto de 2025, a Receita Federal, o Ministério Público de São Paulo, a Polícia Federal e dezenas de órgãos parceiros deflagraram a maior operação contra o crime organizado da história do país em termos de cooperação institucional. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra aproximadamente 350 alvos (pessoas físicas e jurídicas) em oito estados.

O foco inicial era o setor de combustíveis: um esquema bilionário de adulteração, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro com ligações ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Mas o que a investigação revelou vai muito além dos postos de gasolina. Ao rastrear o fluxo financeiro, as autoridades chegaram a fintechs e a ao menos 40 fundos de investimento (multimercado e imobiliários) com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, todos controlados pela organização criminosa. E nesse caminho, as apostas ilegais apareceram como peça central do esquema.

O modelo operacional das bets ilegais é, ao mesmo tempo, simples e sofisticado. Sites registrados fora do país, sem qualquer autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, captam apostadores brasileiros por meio de publicidade massiva em redes sociais, frequentemente com a participação de influenciadores digitais. Os depósitos feitos pelos usuários entram no sistema e seguem dois destinos distintos.

De acordo com estimativas do próprio mercado regulado de apostas, cerca de 50% do volume depositado em plataformas ilegais tem como destino a lavagem de dinheiro. Os recursos transitam por fintechs que operam em zonas regulatórias de baixa fiscalização e chegam a fundos de investimento estruturados para dar aparência de legalidade ao capital ilícito. Foi exatamente esse fluxo que a Operação Carbono Oculto rastreou e interrompeu: três das fintechs identificadas pelos próprios players regulados como receptoras de recursos das bets ilegais constavam entre os alvos da megaoperação.

Os outros 50%, segundo os mesmos interlocutores do setor, são simplesmente golpe. O apostador deposita, perde ou ganha e não recebe. O site fecha. Dias depois, reabre com outro nome, outro endereço digital, e o ciclo recomeça. A Anatel e a SPA chegaram a derrubar mais de 25 mil sites ilegais em 2024, mas o encerramento de uma plataforma é, na prática, apenas o encerramento de um episódio do esquema.

A principal fintech do esquema operava como um banco paralelo, movimentando cerca de R$ 50 bilhões em transações não rastreáveis, graças à utilização de contas-bolsão, contas abertas em nome da própria fintech em bancos comerciais, por onde transitavam recursos de todos os seus clientes de forma não segregada.

As fintechs desempenharam papel central na arquitetura financeira do esquema por uma razão objetiva: lacunas regulatórias que as tornavam praticamente invisíveis para os órgãos de controle. A ausência de obrigação de reportar operações à Receita Federal por meio do sistema e-Financeira, obrigação aplicável às instituições financeiras tradicionais, criava um vácuo de fiscalização que o crime organizado soube explorar com precisão.

Em resposta direta à Operação Carbono Oculto, a Receita Federal publicou, no mesmo dia de sua deflagração, a Instrução Normativa RFB nº 2.278/2025, equiparando as instituições de pagamento às instituições financeiras para fins de prestação de informações ao Fisco. O Banco Central, por sua vez, editou cinco novas resoluções em setembro de 2025: as Resoluções BCB nºs 494 a 498, reforçando os controles sobre essas instituições. Trata-se de uma resposta regulatória significativa, mas que, como todo arcabouço normativo, depende de efetiva implementação e fiscalização para produzir resultados.

Os desdobramentos da Carbono Oculto continuam se multiplicando. Em abril de 2025, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco,  apontado pelas investigações como gestor financeiro do grupo Copape/Aster e um dos principais operadores do esquema, formalizou junto ao Ministério Público de São Paulo uma proposta de delação premiada. Foragido e na lista da Interpol, ele negociou à distância, por meio de seus advogados, a entrega de dezenas de celulares e documentos de corroboração.

A proposta inclui a devolução de aproximadamente R$ 1 bilhão ao erário e, segundo informações apuradas pela imprensa, a revelação da participação de servidores públicos e magistrados estaduais no esquema. A decisão sobre a aceitação do acordo cabe ao Procurador-Geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, reconduzido ao cargo em abril de 2025 pelo Governador Tarcísio de Freitas. A proposta está em análise e promotores do interior do estado já manifestaram resistência, argumentando que parte das informações oferecidas já seria do conhecimento das investigações.

Para o empresário brasileiro, seja ele do setor financeiro, do varejo, da distribuição ou de qualquer outro segmento, a Operação Carbono Oculto entrega uma lição de compliance que não pode ser ignorada:

A utilização de fintechs e fundos de investimento como camadas de ocultação patrimonial é investigada com crescente sofisticação pelas autoridades fiscais e policiais;

A participação, ainda que indireta, em cadeias de relacionamento com empresas envolvidas em esquemas de lavagem pode gerar responsabilização tributária, administrativa e penal;

As novas obrigações impostas às instituições de pagamento, em especial a prestação de informações à Receita Federal, tornam o ambiente regulatório mais rígido e demandam revisão imediata de políticas internas de KYC (know your customer) e PLD (prevenção à lavagem de dinheiro);

Programas robustos de compliance não são mais apenas boas práticas: são instrumentos de sobrevivência empresarial em um ambiente em que o crime organizado se infiltra em setores formais da economia com crescente sofisticação.

A Operação Carbono Oculto não é apenas um capítulo da segurança pública brasileira. É um mapa detalhado das vulnerabilidades do sistema financeiro e da economia formal diante do crime organizado contemporâneo. As bets ilegais, nesse contexto, funcionam como porta de entrada, um mecanismo eficiente de captação de recursos ilícitos que, uma vez dentro do sistema, percorrem camadas sucessivas de ocultação até se tornarem ativos aparentemente legítimos.

Para as empresas, a mensagem é clara: ignorar esse cenário não é uma opção. O fortalecimento das estruturas de compliance, a revisão criteriosa dos relacionamentos contratuais e a adoção de políticas efetivas de prevenção à lavagem de dinheiro deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisitos básicos de governança.

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